Gênesis 18 e 19 revelam Abraão como intercessor e apontam para a relação entre aliança, justiça e intercessão. Este artigo convida à reflexão sobre como Deus escolhe agir em parceria com aqueles que caminham com Ele.
A narrativa de Gênesis 18 e 19 nos apresenta um dos textos mais profundos da Escritura
sobre intercessão, parceria com Deus e justiça divina. Nela, vemos Abraão não apenas
como patriarca da fé, mas como um intercessor que participa do diálogo celestial,
aprendendo a orar segundo o coração de Deus.
Esse texto conecta de maneira poderosa revelação, intercessão e juízo, revelando que
Deus não age isoladamente, mas escolhe envolver pessoas que caminham em aliança com
Ele.
O Contexto: Deus Visita Abraão
No início de Gênesis 18, o Senhor visita Abraão para reafirmar uma promessa
extraordinária: apesar da idade avançada, ele teria um filho — o filho da promessa — por
meio do qual nasceria uma grande nação que abençoaria todas as famílias da terra.
Entretanto, essa visita tinha um segundo propósito. Deus revela que o clamor contra
Sodoma e Gomorra havia chegado até Ele, e que desceria para verificar a gravidade do
pecado daquelas cidades. É nesse cenário que surge um dos diálogos mais reveladores
das Escrituras sobre intercessão.
Revelação e Parceria: Deus Compartilha Seus Planos
“Esconderei de Abraão o que estou para fazer?” (Gn 18:17)
Essa pergunta não nasce de dúvida, mas de relacionamento. Deus decide revelar Seus
planos a Abraão porque ele:
Era amigo de Deus (Is 41:8),
Foi chamado para formar uma nação justa,
Ensinaria seus filhos a andar no caminho do Senhor.
O princípio aqui é claro: Deus compartilha Seus planos com aqueles que caminham em
aliança, responsabilidade e obediência. Como afirma Amós 3:7, o Senhor não faz coisa
alguma sem antes revelar Seus desígnios aos Seus servos.
Quando Deus fala do “clamor” de Sodoma, Ele se refere a pecados sociais graves —
violência, opressão e injustiça (Ez 16:49). Ainda assim, Ele declara que “descerá para ver”,
revelando que Seu juízo nunca é precipitado, mas sempre justo.
A Intercessão de Abraão: Um Diálogo Sagrado
Quando Abraão se aproxima de Deus, ele não o faz como alguém distante, mas como
alguém que conhece o coração do Senhor. Intercessão exige relacionamento.
Abraão fundamenta sua oração no caráter de Deus:
“Não agirá com justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18:25)
Seu argumento não é emocional, mas teológico. Ele reconhece Deus como justo, valoriza a
presença dos justos e entende que poucos fiéis podem influenciar o destino de muitos. Ele
começa intercedendo por cinquenta justos e, com ousadia respeitosa, desce até dez.
A cada pedido, Deus responde: “Não destruirei.”
Deus não repreende Abraão, não se irrita e não encerra a conversa. Pelo contrário, Ele se
permite “constranger” pela intercessão, sem jamais violar Sua justiça. Isso revela que a
oração nos conduz a uma comunhão mais profunda com Deus — uma comunhão da qual
Ele se deleita.
O Juízo em Sodoma e o Limite da Intercessão
Gênesis 19 revela que a corrupção de Sodoma era total. A perversão era generalizada e
agressiva, e nem mesmo dez justos foram encontrados. Aqui aprendemos uma verdade
importante: a intercessão encontra limites, não por falha da oração, mas pela ausência de
arrependimento.
Ló é salvo não por mérito, mas por misericórdia. Ele hesita, e os anjos precisam puxá-lo
pelas mãos:
“Porque o Senhor teve misericórdia dele” (Gn 19:16)
Quando o juízo cai, o texto faz uma afirmação poderosa:
“Deus lembrou-se de Abraão e tirou Ló do meio da catástrofe” (Gn 19:29)
O livramento não acontece porque Deus se lembrou de Ló, mas porque se lembrou da
intercessão de Abraão. Isso revela que a oração de um justo pode proteger terceiros e até
gerações.
Intercessão: Parceria, Não Manipulação
Abraão não tenta manipular Deus. Ele ora alinhado ao caráter divino. Interceder é ficar entre
duas realidades, falando com Deus de acordo com a vontade d’Ele, e não com base no
medo do juízo.
Onde há justos, há retardo do juízo.
Onde não há arrependimento, o juízo se torna inevitável.
Conexão Profética: Abraão Aponta para Cristo
Abraão é uma figura profética de Cristo:
Um justo intercedendo por muitos.
Isaías 53 declara que o Servo Justo intercederia pelos transgressores. Na cruz, Jesus
realizou a maior obra de intercessão da história. Ele orou por nós (João 17), morreu por nós
e hoje vive para interceder à direita do Pai (Rm 8:34).
Além disso, o Espírito Santo continua essa obra, intercedendo por nós com gemidos
inexprimíveis (Rm 8:26).
Conclusão: O Privilégio da Intercessão
Interceder é ser cheio do conhecimento do que arde no coração de Deus. É falar a Ele
aquilo que Ele mesmo deseja realizar, com a certeza de que Ele ouve e libera Seu poder à
medida que clamamos.
Intercessão é:
Um privilégio,
Uma parceria com Deus,
Um alinhamento com o que Jesus está fazendo hoje.
Quando intercedemos, nos envolvemos com os negócios do Reino. Podemos orar por
pessoas, cidades, nações e situações de injustiça. Devemos basear nossa intercessão em
quem Deus é, não no medo do juízo.
Nem toda intercessão impede o juízo, mas toda intercessão salva alguém.
Interceder não é para alguns — é para todos.




